Golpistas se passam por diretor do FC Groningen e enganam agentes em esquema de transferência falsa
O FC Groningen, clube da Eredivisie holandesa, registrou um boletim de ocorrência por fraude de identidade após descobrir que golpistas se passaram pelo diretor técnico Mo Allach para simular negociações de transferência com agentes de jogadores. O esquema foi sofisticado o suficiente para levar um jogador inglês até o aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, na crença de que estava prestes a assinar contrato com o clube. Tanto o Groningen quanto Allach formalizaram queixas à polícia, e a federação holandesa de futebol (KNVB) e o Ministério Público foram notificados.
A operação envolveu documentos falsificados com o logotipo, as cores e o endereço oficial do clube, além de endereços de e-mail fraudulentos e perfis falsos no WhatsApp utilizando a foto real de Allach. O alcance do golpe chamou atenção pelo nível de organização - algo que, no mundo dos esportes, lembra a frieza calculada de grupos que executam viradas surpreendentes sob pressão, como foi a virada histórica da NAVI no torneio de Atlanta, onde a preparação meticulosa fez toda a diferença. No caso do Groningen, a meticulosidade estava a serviço do crime: os fraudadores chegaram a incluir termos contratuais, valores salariais e até benefícios como carro e contrato de quatro anos para iludir agentes e jogadores.
Como o esquema funcionava
Os golpistas entravam em contato com agentes por telefone e e-mail, apresentando-se como representantes do FC Groningen e manifestando interesse nos atletas da carteira desses profissionais. Quando a negociação avançava, enviavam propostas contratuais falsas repletas de detalhes aparentemente críveis. Mo Allach, porém, identificou erros que denunciavam a farsa.
"Eles entram em contato com um agente e, eventualmente, uma proposta de contrato é enviada. Há todo tipo de erro nela. Por exemplo, os valores são listados como cifras líquidas, enquanto no futebol sempre trabalhamos com valores brutos", disse Allach. Os fraudadores também utilizavam seu nome no WhatsApp com a foto verdadeira, mas com números de telefone diferentes e nomes incorretos. Em ao menos um caso, um agente desconfiou porque o inglês falado por quem dizia ser Allach era notavelmente precário.
O chefe de observação do clube, Arno de Jong, revelou a dimensão do problema: "Recebi pelo menos dez telefonemas de agentes nas últimas semanas que nos alertaram sobre isso. Isso mostra que aconteceu em grande escala." De Jong relatou ainda o caso de um agente que o contatou entusiasmado com uma proposta que acreditava ter vindo do Groningen - e que só percebeu a fraude ao tentar agendar um encontro de acompanhamento.
Um jogador esperando em vão no aeroporto
O episódio mais grave expõe a crueldade prática do golpe. "Havia de fato um jogador inglês esperando em Schiphol por transporte até Groningen", disse De Jong. "Ele realmente acreditava que viria jogar conosco. Mas quando ninguém do clube apareceu para buscá-lo, começaram a desconfiar que algo estava errado. Há grandes chances de que seu agente tenha caído no golpe e transferido dinheiro. Esse jogador até recusou outros clubes que tinham interesse genuíno nele. É realmente triste."
Um documento obtido pela emissora RTV Noord revelou que o jogador dinamarquês Julius Madsen, do AC Horsens, também foi alvo de uma proposta falsa, na qual constava um salário de 12.000 euros líquidos mensais, um carro e contrato de quatro anos com opção de renovação. O documento trazia a assinatura "Mo Allach - Sporting Director" e, curiosamente, incluía o nome do patrocinador principal do PEC Zwolle, sugerindo que outros clubes holandeses podem ter sido mimetizados pelo mesmo grupo.
Padrão repetido e alerta ao futebol holandês
O diretor-geral do Groningen, Frank van Mosselveld, confirmou que o esquema não é inédito na Eredivisie. "Na temporada passada, o nome de Jordens Peters, diretor do Roda JC, foi usado da mesma forma. O mesmo aconteceu com Gerry Hamstra, do PEC Zwolle", afirmou. Van Mosselveld ressaltou que a abordagem dos golpistas é sofisticada o bastante para enganar escritórios sobrecarregados: "Se um escritório está trabalhando em 20 negociações ao mesmo tempo, algo assim pode passar despercebido. Eles operam de forma bastante inteligente."
Os fraudadores ainda utilizavam um pretexto regulatório para justificar o envio de dinheiro antes da transferência ser formalizada, alegando que mudanças nas regras de registro da KNVB impediam o clube de inscrever o jogador de imediato e que os pagamentos deveriam passar pelo escritório do agente. O clube informou os demais times da Eredivisie e acredita que o esquema é conduzido por um grupo organizado de golpistas sem vínculo direto com o futebol. "Acredito que é simplesmente um grupo de estelionatários. Por isso, temo que nunca saibamos quem está por trás disso. Quanto mais pessoas souberem, menor a chance de alguém cair", concluiu Van Mosselveld.